
Sete mil crianças pobres britânicas foram enviadas para a Austrália ao abrigo de um programa que visava tirá-las dos orfanatos e ruas do Reino Unido. Era a política do "bom gado branco", que criou infâncias de sofrimento para muitos, vítimas de todo o tipo de abusos.
Ao menos, Laurie Humphreys tinha a vantagem de ser um adolescente – caso possa ser considerada uma vantagem ser tirado à força da própria família e de sua terra natal, a Grã-Bretanha da década de 1940, e mandado para um orfanato a mais de 32 mil quilômetros de distância, para ser abusado brutal e sexualmente, no leste da Austrália.
Humphreys tinha 14 anos, com idade suficiente para entender pelo menos um pouco do que lhe acontecia.
Outras crianças, meninos e meninas, conhecidas na Austrália como os “inocentes perdidos” chegavam a ter apenas 3 anos. Eram crianças abandonadas por mães solteiras ou famílias miseráveis. Elas eram entregues à assistência social da Grã-Bretanha para então serem levadas pelo mundo, frequentemente sem consentimento dos pais, com certidões contendo nomes e datas de nascimento errados, sendo levados a achar erroneamente que não tinham pais ou irmãos vivos.
Humphreys chegou em Fremantle em 22 de setembro de 1947. Ele era um dos 100 meninos e 40 meninas que eram parte da primeira leva de crianças migrantes a deixar a Grã-Bretanha com destino à Austrália, após a Segunda Guerra Mundial.

Migração
Em resumo, esse era um programa que começou na década de 1920, mas que tinha origens no início do século 17, quando migrantes crianças atravessavam o Atlântico em navios para a colônia de Virginia. O esquema se expandiu nos séculos 19 e 20, chegando a um total de cerca de 150 mil pessoas enviadas à Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Rodésia.
No orfanato Bindoon, a 96 km de Perth, Humphreys foi encaminhado para trabalhar em uma das fazendas que levaram à recuperação da Austrália no pós-guerra, e lá ele foi submetido a um duro regime da ordem dos Irmãos Cristãos, que comandavam o orfanato.
Desde o fim dos anos 1940 até 1967, quando a Austrália parou com o programa de migração infantil, de sete a dez mil crianças britânicas fizeram essa mesma viagem. Elas eram compradas com promessas de uma vida feliz na Austrália, mas suas esperanças eram frustradas pelo sistema desumano institucionalizado no país, uma repressão dickensiana.
“Disseram-nos que era a terra do leite e do mel, que iríamos andar de cavalo todo dia para ir à escola”, disse Humphreys, 76, ao telefone, de sua casa em Perth. “Todos nós colocamos as mãos para o alto porque não tínhamos ideia de onde era a Austrália e pensamos que haveria um pouco de aventura”.
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Na última segunda-feira, em uma cerimônia em Canberra, o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, pediu desculpas formalizadas pelo programa, expressando contrição por todos que agüentaram “o sofrimento físico, a miséria emocional e a fria falta de amor, de carinho e de cuidado”, o que caracterizada as experiências de muitas crianças migrantes. “Sinto muito por essa tragédia, uma tragédia absoluta de infâncias perdidas”, disse ele.
O líder oponente, Malcolm Turnbull, também ficou consternado e pediu desculpas, o que levantou uma salva de palmas da plateia, na qual também estava Humphrey. “Reconhecemos que além do sentimento de solidão, abandono e de não receber amor, muitos de vocês apanharam e foram abusados, física, sexual e mentalmente – tratados como objetos, não como pessoas -, o que os deixou com um sentimento desânimo ainda maior”, disse Turnbull.
O anúncio na Austrália também abriu espaço para um pedido de desculpas da Grã-Bretanha pelo o que o ministro das crianças, Ed Balls, chamou de “uma mácula na nossa sociedade”. Mas autoridades de Londres disseram que o premiê Gordon Brown deixaria para anunciar seu pedido de perdão no começo do ano que vem. Brown talvez queira mais tempo para avaliar os pedidos por indenizações financeiras feitas por sobreviventes do programa na Austrália. As vítimas que sofreram com o programa sugeriram como exemplo a indenização de mais de meio bilhão de dólares que a Igreja Católica Romana dos EUA pagou a duas vítimas de abuso sexual, que ocorreram em instituições controladas pela Igreja, nas duas últimas décadas.
Indenização
O governo de Rudd já disse que não haverá indenização na Austrália. O governo canadense foi mais além, dizendo que não tem planos de se desculpar pelo programa, que chegou a superar o da Austrália. Os estudantes no Canadá indicam que até 100 mil crianças britânicas foram mandadas para o país norte-americano de 1860 a 1939, quando o programa canadense efetivamente chegou ao fim.
Uma associação de ex-migrantes crianças chamada Home Children Canada, termo pelo qual são conhecidas no país, estima que dois terços das crianças migrantes tenham sofrido abusos. Em seu livro de 1980, “The Little Immigrants” (Pequenos Imigrantes, em tradução literal), o jornalista Kenneth Bagnell documentou mostras de maus-tratos sexuais e físicos, como também a violação dos regulamentos que exigiam que os fazendeiros pagassem salários em contas fiduciárias.
Mas devido à quantidade relativamente pequena de migrantes que ainda vivem no Canadá, o assunto ganhou menos atenção política do que na Austrália. Jason Kenney, ministro de cidadania e imigração do Canadá, contou à agência de notícias Canadian Press, após o pedido de desculpas de Rudd, que não tinha necessidade de o Canadá se desculpar. Outras autoridades canadenses disseram que a maioria das crianças que foram enviadas ao Canadá não foi abusada.
Mas a extensão do abuso sofrido por crianças que foram para a Austrália foi amplamente documentada em um relatório de 1988 pelo Comitê Superior de Saúde do Parlamento Britânico, e em um texto de 2001, do Senado australiano. Os relatórios descrevem a rigorosa lógica colonial que sustentava o pensamento britânico de manter a migração por 350 anos e de explorar as misérias causadas pelo programa, por meio de entrevistas concedidas pelas vítimas.
Intenções
O relatório britânico disse que o incentivo para que houvesse o programa veio de uma mistura da “realpolitik” e o idealismo que perdurou pelos séculos de construção do império britânico. “Por um lado, havia um verdadeiro desejo filantrópico de resgatar as crianças da destituição e negligência na Grã-Bretanha e mandá-los para uma vida melhor nas colônias”, segundo o relatório. “Isso foi de mão em mão com um desejo de proteger as crianças da ‘moral e do perigo’ que crescia na situação de seus lares – por exemplo, no caso da mãe de alguns que eram prostitutas”.
O relatório também citava mais contas pragmáticas enraizadas nas casas pobres e superlotadas e nos orfanatos descritos por Dickens. “A migração infantil era frequentemente vista como um benefício econômico tanto para a Grã-Bretanha (por causa do alívio por não ter mais gastos públicos com essas crianças) quanto para os países que as recebiam (porque as crianças eram vistas como potenciais integrantes de uma força braçal saudável e bem treinada”, dizia o relatório.
De acordo com o texto, o programa também tinha motivos raciais. Ele menciona John Hennessey, ex-migrante infantil, descrevendo que, “ao chegar a Fremantle, ele e outras crianças foram saudadas por um clérigo que dizia: ‘precisamos de estoque branco. Precisamos que esse país seja habitado por um estoque de brancos porque estamos aterrorizados com a horda de asiáticos’”.
Talvez a parte mais cruel da história seja a incidência de abuso sexual. Humphreys disse que por ser mais velho do que muitas outras crianças em Bindoon, e mais hábil para se defender, ele escapou do que o relatório descreve como uma “depravação absolutamente incomum”, que era considerada norma no lugar e em muitas outras instituições australianas. O documento conta que um menino testemunhou ao inquérito que os integrantes dos Irmãos Cristãos haviam “competido para ver quem conseguiria ser o primeiro a estuprá-lo pela 100ª vez”.
Fonte: New Yor Times
Foto do lead: capturada no site www.dhnet.org.br














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